Por que Lula quer uma candidatura petista em São Paulo?

Publicado segunda-feira, 07 de fevereiro de 2022 às 06:03 h | Autor: Cláudio André de Souza* | claudioandre@unilab.edu.br

A estratégia eleitoral de Lula em São Paulo pede duas reflexões. Primeiro, o Estado é fundamental para concentrar ou dividir seu poder central entre os diferentes níveis de governo. A Constituição de 1988 atribui importantes poderes aos estados, em especial na organização da representação política (eleições locais nos estados e nos municípios). A disputa nacional não está dissociada dos cenários locais. 

Em segundo, no âmbito do sistema político federalista, a organização do poder central manteve-se ligada à representação proporcional dos estados, com destaque para o “inchaço” de São Paulo, fruto da migração interna e da chegada de estrangeiros. Para se ter uma ideia, entre 1887 e 1930, o estado de São Paulo pode ter recebido cerca de 2,5 milhões de imigrantes, a maioria de países da Europa e do Japão; do Nordeste e de Minas Gerais chegaram cerca de 280 mil pessoas.

O que acontece, então? O inchaço de São Paulo significa que 21,79% do eleitorado brasileiro vive lá. Qualquer partido ou candidato a presidente precisa, portanto, ocupar o centro econômico do país, o terceiro maior mercado consumidor da América Latina, 31,2% do PIB brasileiro (2020). 

Além disso, uma candidatura presidencial depende de palanques fortes nos estados. Quanto maior a proporção de eleitores nos maiores estados, mais prioritárias se tornam as estratégias para dominar esses estados. Em 1994, quando o PSDB ganhou a presidência com Fernando Henrique Cardoso, levou também o estado paulista, elegendo o tucano Mário Covas, que se reelegeu em 1998, junto com FHC. 

Desde 1982, o PT lança candidatos ao governo de São Paulo (ver gráfico abaixo). Nunca venceu, mas sabe que demarcar espaço serve à estratégia de sustentação política nas eleições presidenciais. Há outro fator, sociológico: um grande contingente de trabalhadores está em São Paulo, onde nasceu o PT e a liderança política nacional do próprio Lula. 

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As negociações petistas em favor da candidatura de Fernando Haddad (PT) em São Paulo consideram que a) o PT sempre teve candidatura em São Paulo, b) é preciso projetar Haddad como sucessor de Lula e c) o partido precisa renovar, urgentemente, as suas bases no estado. Haddad candidato, mesmo que não vença, poderá vir a ocupar um ministério em um novo governo de Lula e manter-se vivo no cenário eleitoral de 2026. 

A estratégia de Lula faz sentido e levou o PT a sucessivas vitórias nas últimas duas décadas da política brasileira. A iminente confirmação de Geraldo Alckmin como seu vice revela o intuito de dar mais um passo para “reocupar” São Paulo e vencer as próximas eleições. Com Alckmin, Lula poderá até mesmo desistir de ter um candidato petista em São Paulo, mas se a vitória em primeiro turno estiver no radar.

*Cláudio André de Souza é professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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