Os desafios de Neto

O eleitorado baiano tem nacionalizado a sua preferência de voto dentro da lógica de alinhamento nacional

Publicado segunda-feira, 08 de agosto de 2022 às 00:00 h | Autor: *Cláudio André de Souza
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Uma das qualidades de ACM Neto tem sido a capacidade de articulação política tanto na esfera local quanto nacional. Também não é para menos, uma vez que após a trágica morte precoce de Luís Eduardo Magalhães em abril de 1998, quando também tinha 43 anos e era pré-candidato ao governo baiano, antecipou a condição de ACM Neto como herdeiro do grupo carlista.

Este papel de ACM Neto como líder principal do carlismo se confirmou após o falecimento de Antônio Carlos em 2007. Naquele ano, ele tinha sido reeleito deputado e operava em Brasília a refundação do PFL como DEM, além do desafio local de manter coeso um grupo derrotado nas eleições à prefeitura de Salvador (2004) e ao governo baiano (2006).

Por quanto tempo um grupo político habituado ao poder suportaria ficar sem governar a capital, o Estado e o governo central? A candidatura à prefeito em 2008 veio justamente da necessidade de manter-se como uma liderança competitiva. Mesmo perdendo aquela eleição ainda no primeiro turno ganhou, pois, pavimentou força no eleitorado para, enfim, vencer as eleições municipais da capital baiana em 2012. 

O caminho pela frente de ACM Neto para tornar-se governador se mostra desafiador diante de um acúmulo contínuo de força da oposição. Nas eleições municipais de 2016, o DEM passou a governar 31,9% da população baiana. Em 2020, o partido saiu das urnas governando 30,4% da população e os aliados ainda faturaram no segundo turno mais duas grandes cidades, Feira de Santana e Vitória da Conquista. 

A convenção do União Brasil realizada na sexta (5) oficializou ACM Neto como candidato em um clima de que a oposição tem condições inéditas para retomar o poder na Bahia. Durante a convenção, Neto demarcou críticas ao governo estadual em temas como educação e segurança e ainda buscou estancar a crise na escolha de uma vice de fora da política, justificando que precisava de uma chapa jovem e com presença feminina.

A pedra no sapato da oposição reside na hegemonia de Lula nas urnas. O eleitorado baiano tem nacionalizado a sua preferência de voto dentro da lógica de alinhamento nacional. As pesquisas mostram a cada rodada que Lula tem total condições de transferir votos para Jerônimo Rodrigues (PT), ainda bastante desconhecido no eleitorado baiano. A tendência é que a reversão da intenção de votos lulistas em ACM Neto seja diretamente proporcional ao aumento do conhecimento de Jerônimo no eleitorado que já decidiu votar no ex-presidente. 

Neste ínterim, ACM Neto flerta com os eleitores bolsonaristas e lulistas dentro de uma estratégia de independência divergente das últimas eleições, as quais todos os governadores eleitos desde 1990 apostaram todas as fichas em uma chapa nacional. Será que agora vai dar certo?

*Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020). E-mail: claudioandre@unilab.edu.br

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