O golpismo de Bolsonaro

Publicado segunda-feira, 25 de julho de 2022 às 06:00 h | Autor: Cláudio André de Souza*
Imagem ilustrativa da imagem O golpismo de Bolsonaro
-

Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições de 2018, publiquei no A TARDE o artigo “Vencerá Bolsonaro ou a democracia”. A parte final da publicação alertava os leitores: “independente se você, leitor, é ou não simpático ao candidato, alguns pontos chamam mais a atenção e até aqui são preocupantes: a) a forma como Bolsonaro trata a pauta de direitos humanos como se fosse um mero debate ideológico focado na segurança pública; b) a noção de “ativismo” da sociedade civil como um problema, assim como as ideologias políticas; c) um aceno à violência política e ao ódio ao não refutar e condenar de forma clara o que está acontecendo em todo o país; d) por fim, a forma estapafúrdia como expôs uma possível fraude do sistema eleitoral caso não vença as eleições [...] a ausência de debates com o seu adversário de segundo turno piora ainda mais a situação, mantendo dúvidas sobre como faremos com o nosso regime democrático. Nesta situação, vence Bolsonaro ou a nossa democracia”.

Infelizmente, o diagnóstico estava correto e vem se confirmando desde o primeiro dia quando Bolsonaro se sentou na cadeira de presidente. Não há uma semana sequer que ele não confronte as instituições republicanas do país e os demais poderes, ou seja, o governo engendra atos sucessivos de confronto aos poderes dentro de uma fórmula simples e previsível: todas as vezes que o presidente se vê acuado em uma determinada agenda arma-se um embate público dentro e fora das redes sociais, mas há um tempo a cooptação institucional deixou de ser retórica, o que é uma grave ameaça à democracia.

O desmatamento incentivado na Amazônia, o corte de verbas das universidades, o cerco às investigações da PF, os descasos com o combate à pandemia, as ofensas pessoais aos ministros do STF, os ataques sórdidos às urnas eletrônicas e à Justiça Eleitoral são exemplos da corrosão republicana e democrática promovida pelo bolsonarismo.

Uma proposta de análise de conjuntura da política brasileira: Bolsonaro sustenta um projeto político e societário assombroso, buscando perseguir a sociedade civil, cujo conflito político no interior das instituições parte do gabinete que abriga a presidência, aniquilando a vocação do cargo para a moderação e o equilíbrio institucional entre os poderes.

O golpismo de Bolsonaro ficou claro ao convocar na semana passada dezenas de embaixadores estrangeiros fora da agenda oficial para promover um insólito ataque contra o Judiciário do seu próprio país e o nosso sistema eleitoral. Qual a estratégia? Ao perceber que será muito difícil vencer Lula nas eleições, o golpista do Planalto quer reforçar a imagem de vítima de um complô, uma velha tática de gerar mobilização e apoio contra um “inimigo comum”.

*Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020). E-mail: claudioandre@unilab.edu.br

Publicações relacionadas