O comício eleitoral de Bolsonaro

Atos no dia da Independência tiveram uma dupla finalidade

Publicado segunda-feira, 12 de setembro de 2022 às 05:30 h | Autor: Cláudio André de Souza*
Bolsonaro calibrou sua retórica nos atos para que soasse mais moderada no enfrentamento das instituições políticas
Bolsonaro calibrou sua retórica nos atos para que soasse mais moderada no enfrentamento das instituições políticas -

Na semana passada, aqui nesta coluna, indagávamos de que forma as celebrações do bicentenário da Independência do Brasil renderiam votos ao presidente Jair Bolsonaro (PL). A última pesquisa Ipec, divulgada na segunda, 5, confirmou a liderança de Lula, com 44% das intenções de voto, ante 31% do atual presidente. 

Já a pesquisa do Datafolha foi a campo nos dias seguintes ao 7 de Setembro, confirmando um cenário estável, com Lula liderando a corrida com 45%, ante 34% de Bolsonaro, mas sendo a menor distância entre eles desde maio de 2021. 

Diante deste quadro, Bolsonaro calibrou sua retórica nos atos para que soasse mais moderada no enfrentamento das instituições políticas, preservando, porém, a raiz golpista, ao afirmar que, caso seja reeleito, pode colocar os demais poderes para “jogar nas quatro linhas” e que o país pode voltar a viver um Estado de exceção. 

A mudança de foco foi estratégica: pela manhã em Brasília, o presidente ensaiou um coro a favor da sua virilidade; pela tarde, na praia de Copacabana, direcionou suas críticas à esquerda e ao ex-presidente Lula, chamando-o de quadrilheiro. 

Qual o cálculo? Sem clima para golpismo entre lideranças da sociedade civil e da sociedade política nacional e internacional, algo que já se havia demarcado a partir do êxito da Carta pela Democracia, Bolsonaro concentra o que resta do seu capital eleitoral na busca pela reedição do antipetismo que definira as eleições de 2018. Continua mandando recados ao STF e ao TSE, no entanto, como um “plano B”, prenunciando que contestará o resultado das eleições em caso de derrota. Não há meio-termo em debate. 

Os atos no dia da Independência tiveram uma dupla finalidade. Num primeiro plano, o bolsonarismo precisa botar gente na rua e mobilizar seu público cativo; são centenas de candidatos a deputado e para os cargos majoritários em todo o país, e a mobilização para os atos ajuda a organizar e engajar mais pessoas nas campanhas eleitorais bolsonaristas. 

Num segundo plano, Bolsonaro buscou redobrar a “expectativa de vitória”, anunciando que ainda está vivo na disputa eleitoral. Na série histórica desde 1998, quando teve início o instituto da reeleição, qual presidente candidato a um segundo mandato amargou o segundo lugar e assistiu o seu adversário beirar uma vitória ainda no primeiro turno? Nenhum.

O presidente roubou a cena mesmo com a misoginia da reafirmação de que é “imbrochável”, como se o voto feminino lhe fosse cair no colo depois de palavras tão desastrosas. O aparelhamento de Bolsonaro converteu os atos pela Independência em meros comícios eleitorais e foram vitoriosos ao mobilizar sua base para ocupar as ruas, mas foram horríveis quanto à salvaguarda dos interesses republicanos e democráticos.  

*Cláudio André é Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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