Lula favorito na corrida à presidência

Publicado domingo, 16 de janeiro de 2022 às 16:25 h | Autor: *Cláudio André de Souza | claudioandre@unilab.edu.br

Há uma dinâmica de poder reconhecida por quase todos os políticos habilidosos: é o timing no qual as decisões devem ser tomadas, sobretudo as negociações de estratégias eleitorais. A viabilidade das candidaturas depende de uma multiplicidade de fatores, que as tornam mais ou menos competitivas até chegarem às urnas.

As ações políticas também dependem das regras institucionais que definem como deve funcionar nosso sistema político. São as “quatro linhas” que o presidente Bolsonaro insiste em frisar nas suas falas, como se fosse uma “vítima do sistema”, quando, na verdade, foi ele que tentou, há poucos meses, uma saída autoritária em pleno 7 de setembro. 

A tentativa de golpe por dentro das instituições não só assustou o mercado e os políticos, como provocou um descompasso visível quanto à funcionalidade esperada do cargo de presidente da república: estabilidade, conciliação e respeito às instituições, a serviço das quais deve estar, zelando por elas. 

O timing de Bolsonaro foi catastrófico. Boicotou as medidas científicas de combate à pandemia de Covid-19; achou que bastava requerer os serviços do centrão e construir uma mobilização radical que, se não virasse golpe, iniciaria o clima eleitoral pelas vias do ódio, reeditando a polarização das eleições de 2018. Qualquer presidente de uma democracia, a um ano das eleições, se preocuparia em assinalar uma postura contrária: atrair novos apoiadores, cuidar dos interesses da sua coalizão governista, moderar.

A primeira rodada de pesquisas eleitorais de 2022 não deixa dúvidas quanto à tendência de derrota de Bolsonaro e ao favoritismo de Lula. O petista possui 34% de votos na pergunta espontânea da pesquisa Exame/Ideia, e 45% dos entrevistados têm certeza de que Lula vencerá a eleição. A expectativa de vitória é fundamental para mobilizar todos os segmentos do eleitorado a considerarem a decisão de voto em primeiro turno tendo em vista o favoritismo. Na pesquisa Exame, Lula alcançou 41%; na pesquisa do Ipespe, 44%. 

Vale considerar que a avaliação negativa de Bolsonaro é alta (54% na pesquisa Ipespe), sendo que a intenção de votos no presidente se mantém em 24% em ambas as pesquisas. Com uma avaliação de governo tão negativa, como conseguir atrair novos eleitores, num possível segundo turno?

A “salvação” de Bolsonaro depende da sua performance até março. Lula, como favorito, condicionará as estratégias eleitorais dos partidos, o que pode acelerar o esvaziamento político do governo e determinar as expectativas do mercado quanto às eleições. Do jeito que vai, o café ficará mais frio no Planalto.

 *Cláudio André de Souza é professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

Publicações relacionadas