Democracia ou Bolsonaro?

Publicado domingo, 31 de julho de 2022 às 21:12 h | Atualizado em 01/08/2022, 08:03 | Autor: Cláudio André de Souza*
Imagem ilustrativa da imagem Democracia ou Bolsonaro?
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Na semana passada (24), a convenção do Partido Liberal (PL) oficializou a candidatura à reeleição de Bolsonaro. Ele tentou adotar um tom mais sereno, enfatizando sua rotina à frente da presidência, não obstante se tenha verificado, em levantamento recente divulgado pelo site “Congresso em Foco”, que, em 2019, o presidente trabalhou 5,6 horas por dia, em média, índice que caiu para 3,6 horas, em 2022 - uma redução de 35%.

Ouviu-se também um apelo da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que buscou apresentar seu marido como um presidente que governa para o eleitorado feminino. Bolsonaro também fez menção à ação do governo para o público jovem. Os segmentos dão a maior rejeição ao presidente, acima dos 60%.

O que mais chamou a atenção, no entanto, foi o show de antidemocracia, do meio para o fim do discurso. O presidente convocou seus apoiadores a ocuparem as ruas "uma última vez" no 7 de Setembro e, em seguida, dirigiu seus ataques habituais a ministros do STF. O staff da campanha esperava que ele evitasse declarações radicais e ataques ao Supremo, bem como a alusão à necessidade de "eleições limpas" e sem “fraude” e seu velho discurso de que as eleições passadas foram violadas para impedir sua vitória no primeiro turno.

A reação ao golpismo do presidente veio rapidamente, com a divulgação de uma Carta em defesa do Estado Democrático de Direito. A “Carta pela Democracia” já ultrapassou a marca das 400 mil assinaturas. Entre os signatários do manifesto estão empresários, associações que reúnem bancos e líderes do setor industrial, figuras que passam longe de uma militância partidária ligada à esquerda; logo, fica difícil desqualificar o texto por aí.

O sinal de uma iminente derrota do presidente veio com a pesquisa do Datafolha divulgada na quinta-feira (28), mostrando que Lula mantém 47% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro oscilou positivamente um ponto, com 29%. A pesquisa mostrou que 36% dos eleitores de Ciro Gomes (PDT), 33% dos eleitores de Simone Tebet (MDB) e 37% dos eleitores de André Janones (Avante) têm Lula como segunda opção de voto, o que torna possível ao petista liquidar a fatura ainda no primeiro turno, se houver um movimento pelo “voto útil”.

A chegada do mês de agosto é marcada pelo início oficial da campanha, daqui a duas semanas. No dia 26 de agosto começam as peças publicitárias em horário gratuito de rádio e televisão. O que fará a campanha de Bolsonaro até o 7 de setembro?

Com dificuldade de implementar ações golpistas exitosas, Bolsonaro e os seus aliados investirão na agenda de realização do governo e na mobilização de segmentos que enxergam uma melhora da economia brasileira. Ainda tem os evangélicos e os beneficiários do Auxílio Brasil. A disputa eleitoral está só começando!

*Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020). E-mail: claudioandre@unilab.edu.br

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