Democracia e polarização política no Brasil

Publicado domingo, 23 de janeiro de 2022 às 18:33 h | Autor: *Cláudio André de Souza

Em um artigo publicado em 2021 na Journal of Democracy, Jennifer McCoy (professora de ciência política da Universidade do Estado da Geórgia, Estados Unidos) e Murat Somer (professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Koç em Istambul) analisam como as democracias têm sido atacadas por líderes polarizadores ao redor do mundo, que atuam para gerar um enfraquecimento das democracias, gerando uma “terceira onda da autocratização”.

Diferente da mera disputa eleitoral entre partidos diferentes dentro de uma arena competitiva controlada pelas “regras do jogo”, sob as quais se operam as bases de uma oposição e exclusão de discursos e ideias, diversas lideranças tem ascendido na política ameaçando a democracia, investindo na lógica da ameaça existencial e desconfiança quando um lado da disputa não pode existir, que pode descambar na ideia de que todos os meios disponíveis devem ser usados para vencer a luta pelo poder.

Um dos efeitos observados pelos pesquisadores diante da ascensão de líderes polarizadores envolve o interesse em gerar conflitos na sociedade para arregimentar militantes radicalizados e propensos a deslegitimar as oposições perpassa pela hipocrisia democrática, isto é, em contextos de polarização um lado da disputa passa a enxergar que o adversário ameaça a nação, levando esses eleitores a tolerarem políticas que minam as normas democráticas existentes, resultado alcançado em pesquisa experimental realizada com eleitores norte-americanos. Quando os eleitores apoiam o partido que está no poder, mantém-se à lógica da incorporação do discurso de “guerra” contra um mal maior.

Se você chegou até este momento da leitura pensando que tais resultados dos pesquisadores explicam o Brasil de Bolsonaro, parabéns! O presidente brasileiro investiu na polarização radical contra militantes pelos direitos humanos, pela igualdade, artistas, movimentos sociais, universidades como se fossem tudo uma “esquerda” só representada eleitoralmente pelo PT. No final das contas, o bolsonarismo (um projeto de poder mais amplo que Bolsonaro) busca até hoje promover uma deslegitimação de uma multiplicidade de vozes que ecoam para além das estratégias eleitorais.

Embora a polarização perniciosa não seja habitat exclusivo de líderes da extrema-direita, a democracia brasileira conviveu por décadas com PT e PSDB polarizando seis eleições entre 1994 e 2014 sem nenhum risco político sério. Em 1994, 81% dos eleitores votaram polarizados em ambos os partidos. Na eleição seguinte, foram 85% e em 2002, 68%. Em 2006, 91% escolheram os dois partidos no primeiro turno. Em 2022, a nossa polarização pode oferecer riscos à democracia vindos de Bolsonaro, um “autocrata” em evidência.

*Cláudio André de Souza é professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

Publicações relacionadas