Dá para vencer as eleições sem palanque presidencial?

Publicado segunda-feira, 18 de abril de 2022 às 06:03 h | Autor: Cláudio André de Souza* | claudioandre@unilab.edu.br
Principais candidatos à Presidência da República em 2022
Principais candidatos à Presidência da República em 2022 -

Passado o burburinho da janela partidária, já temos a definição do candidato governista, o ex-secretário estadual de Educação, Jerônimo Rodrigues (PT), como adversário do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (UB). Na revoada dos partidos, o PP ficou com Neto e o MDB selou aliança com os petistas, ao indicar o Presidente da Câmara Municipal de Salvador, Geraldo Júnior, como o candidato a vice-governador na chapa governista. 

O lançamento da pré-candidatura do petista ocorreu na última semana de março e contou com a presença de Lula, sendo pensada nos detalhes para demonstrar força e adesão do grupo. Foi assim imediatamente quando Lula desembarcou na capital baiana como o fiador da aliança entre o MDB e o PT, algo que interessa à sua candidatura presidencial por entender que precisa manter proximidade com os emedebistas para um provável segundo turno contra Bolsonaro. Sem tabus e ressentimentos, Geddel e Lúcio Vieira Lima fizeram um “leilão” e optaram por uma aliança com o PT que somasse mais espaços políticos do que tiveram todos estes anos na aliança com ACM Neto na Prefeitura de Salvador e na montagem da sua chapa ao governo.

Em segundo lugar, com o favoritismo de Lula para vencer a disputa presidencial, ter uma aliança com os petistas baianos pavimenta a presença do MDB baiano em um eventual governo do petista, reconduzindo o partido mais uma vez para um protagonismo perdido após as eleições de 2014 e que foi soterrada com as investigações da operação Lava Jato. 

A confirmação da filiação do ex-ministro João Roma ao Partido Liberal (PL) de Bolsonaro e sua disposição em ser candidato ao governo baiano é uma “pedra no sapato” de ACM Neto, já que seria uma candidatura para dentro da oposição antipetista, o que pode rachar o espectro do eleitorado, provocando um enfraquecimento da candidatura do ex-prefeito. 

A pesquisa Genial/Quaest de março identificou que 14% querem que vença um candidato a governador mais ligado a Bolsonaro, sendo que 29% afirmam que mudaria seu voto se seu candidato fosse apoiado pelo atual presidente. Ou seja, quanto mais houver potencial de João Roma atrair os votos bolsonaristas, ACM Neto corre o risco de perder uma parte do eleitorado antipetista mais radicalizado, levando a seu enfraquecimento político.

A estratégia de ACM Neto em não nacionalizar as eleições com um palanque único é inteligente, porém, muito arriscada. Sem um palanque presidencial, se vê livre para incentivar dobradinhas “Lula-Neto”, mas como este eleitorado não seguirá a orientação de Lula no voto a Jerônimo? De que forma, o eleitorado bolsonarista radical não apoiará João Roma? Como vencer sem Lula e Bolsonaro quando o governo Rui Costa ainda é muito bem avaliado pelo eleitorado baiano? A conferir.

*Cláudio André é Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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