As declarações de Lula

Falas polêmicas de Lula nas últimas semanas representam posições ideológicas em debate na esquerda

Publicado segunda-feira, 09 de maio de 2022 às 06:02 h | Autor: Cláudio André de Souza*
Conexão com grandes públicos da sociedade brasileira tem sido marca na carreira política do ex-presidente
Conexão com grandes públicos da sociedade brasileira tem sido marca na carreira política do ex-presidente -

Se a carreira política do ex-presidente Lula tem uma marca constituída, essa é a da arte de falar ao pé do ouvido de grandes públicos da sociedade brasileira, traduzindo temas densos e complexos da economia e da política em frases de efeito, simples, de grande valor no âmbito da representação política.

As declarações sob medida do presidente, ao longo da sua trajetória, cabiam dentro de um cálculo eleitoral: no período que se inicia em 1989, Lula vivia o desafio de ter que falar para convertidos intelectualmente – a classe média urbana escolarizada e com renda mais alta – ao mesmo tempo em que precisava aumentar o peso do PT entre os eleitores com menos renda e anos de estudo.

Na ciência política, passamos a chamar de lulismo o fenômeno eleitoral que levou Lula a virar o jogo da representação—isto é: a ter mais eleitores de baixa renda e menos escolarizados. Isso aconteceu na eleição de 2006, diferente das anteriores, quando Lula ainda era apoiado por eleitores com um perfil mais “elitizado”. O que mudou? Seu primeiro governo gerou políticas sociais que mexeram na preferência do voto dos eleitores. Uma série de ações inverteu o público eleitor do lulismo, criando uma base eleitoral popular que se mantém ao lado do ex-presidente até o presente momento.

Consolidada do jeito que está, a base lulista explica a macroestratégia do PT para estas eleições: focar no público que foi lulista e votou em Bolsonaro em 2018. Mas essa estratégia não mais se encaixa perfeitamente em tempos de redes sociais, quando a preferência do voto é influenciada por um conjunto plural de valores, ideias e racionalidade política agenciados pelo fluxo de informações que chega à base lulista  pelos smartphones, tudo em meio a uma socialização política digital mais complexa.

Diante das redes sociais, as falas polêmicas de Lula nas últimas semanas representam posições ideológicas em debate na esquerda, as quais podem ser moderadas no jogo da política; dado um público “A”, determinada fala não representa necessariamente perda de votos no público “B” ou “C”. A confirmação disso, porém, depende de um estudo aprofundado, com pesquisas qualitativas e quantitativas que delimitem os segmentos em disputa do eleitorado.

As idas e vindas na contratação da agência de publicidade da campanha petista e a troca da coordenação de comunicação afetaram a preparação das declarações do ex-presidente. O lançamento da sua pré-candidatura no sábado passado (7) mostrou um novo momento na comunicação da pré-campanha. O predomínio da identidade visual com as cores da bandeira do Brasil, uma nova versão do jingle “Lula lá” e um discurso em tom de união nacional reforçam a estratégia de atingir públicos mais amplos fora da base lulista. Dará certo a curto prazo?

*Cláudio André é Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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