A estabilidade das coalizões políticas na Bahia

O peso das coalizões pode ser determinado pelas polarizadas eleições presidenciais

Publicado domingo, 01 de maio de 2022 às 17:51 h | Autor: *Cláudio André de Souza
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 "Hoje a Bahia vai dormir feliz; uma nuvem que pairava há 16 anos está se dissipando", declarou Jaques Wagner em entrevista coletiva improvisada no salão de festas do edifício onde morava, após o final da apuração nas eleições ao governo baiano de 2006. A derrota do carlismo interrompia um ciclo autoritário avant-garde, que operava um tipo de hegemonia com forte presença nos espaços sociais, culturais, econômicos e políticos, todos eles atravessados pela captura do público pelos interesses privados. 

Eleito com 52,89% dos votos, a partir de uma aliança que plasmava as forças políticas nacionais presentes na Bahia (PT, PMDB, PSB, PTB, PPS, PCdoB, PRB, PV e PMN), Wagner se negou a promover um aniquilamento de forças carlistas; ao contrário, resolveu atraí-los para o campo político governista, ainda mais fortalecido com a reeleição de Lula à presidência. Os espaços ocupados por baianos em Brasília serviam ao interesse de fortalecer o projeto petista na Bahia.

O método de composição política de Wagner e dos partidos governistas se mostrou estável, mesmo quando o PMDB dos Vieira Lima rompeu com o PT. Levou também à refundação da carreira política do atual Senador Otto Alencar, que se deu pela negociação do seu ingresso no PP, para que pudesse ser o candidato a vice-governador na chapa da reeleição de Wagner. Parte dessa força ajudou a fundar o PSD a partir de 2011, tornando, inclusive, PP e PSD os dois principais partidos na eleição de prefeitos baianos.

Três fatores geram estabilidade nas coalizões políticas: o equilíbrio entre as forças partidárias, proporcional aos votos recebidos; a ambição política dos aliados; e a competição política nacional.  O primeiro fator foi reconfigurado com a chegada do PT ao governo baiano e um redesenho mais equilibrado das forças político-partidárias. O mesmo pode ser dito do campo pós-carlista liderado por ACM Neto, quando à frente da prefeitura de Salvador. 

O segundo fator envolve a ambição de aliados nas coalizões. PP, PSD e PSDB entendem que estão no segundo pelotão, combinando estratégias eleitorais que têm como foco as prefeituras e a eleição de bancadas maiores para a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados.

Por fim, o peso das coalizões pode ser determinado pelas eleições presidenciais, ante acentuada polarização estabelecida entre Lula e Bolsonaro, que dá mais chances de vencer a quem estiver atrelado ao petista—até aqui o que tem mais intenção de votos no eleitorado baiano. As duas principais coalizões baianas estão estáveis, com partidos que lideram e competem entre si na corrida pelo voto, face a uma racionalidade política que tem se mantido nas últimas eleições. Isso faz bem à democracia representativa. 

*Cláudio André é Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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