A destruição institucional de Bolsonaro

Autores de livro bsucam entender o bolsonarismo como fenômeno que não está restrito à representação eleitoral

Publicado domingo, 24 de abril de 2022 às 17:43 h | Autor: *Cláudio André de Souza
Livo reflete sobre a disposição de Bolsonaro em atacar instituições imbuídas no controle constitucional
Livo reflete sobre a disposição de Bolsonaro em atacar instituições imbuídas no controle constitucional -

Na esteira da empreitada intelectual de entender a crise que vive a democracia brasileira, já está nas livrarias a “Linguagem da destruição: a democracia brasileira em crise” (Companhia das Letras). Os autores apresentam ensaios individuais, buscando entender o bolsonarismo como um fenômeno que não está restrito à representação eleitoral.

Uma das características marcantes é a prevalência de uma espécie de “republicanismo às avessas” acomodada em uma utopia reacionária que deslegitima, por exemplo, a sociedade civil e as suas formas de mobilização orgânica em torno de valores e ideias. Isso justifica, por exemplo, a sanha bolsonarista em perseguir artistas, intelectuais, movimentos sociais e universidades, mas legitima de pastores a lobistas evangélicos informais na antessala do ministro da Educação. Ou seja, só é legítima uma parte da sociedade que reza pelos interesses do governo?

O livro está estruturado em três capítulos. O primeiro foi escrito pelo cientista político Miguel Lago e analisa a permanência de Bolsonaro no poder, sobretudo, após o desastre que foi o governo ao longo destes mais de dois anos de pandemia, mas com uma qualidade inconteste: seu governo de fato representa um desastre econômico, social e sanitário, mas sua comunicação digital é um trunfo político que não pode ser ignorado. A hiperconectividade da sociedade brasileira revela desafios analíticos incontornáveis e urgentes para entender o voto dos brasileiros. 

O segundo capítulo, escrito pela historiadora Heloisa Murgel Starling, aprofunda a utopia reacionária do bolsonarismo operado de dentro para fora das instituições, corroendo pilares do estado democrático. 

Por fim, o terceiro capítulo, do filósofo Newton Bignotto, procura debater conceitualmente a relação de Bolsonaro com visões populistas e fascistas. Pelas lentes da teoria política, o presidente está longe de respirar democracia, o que já diz muito sobre o que o risco que podemos viver nas próximas eleições. 

O livro, que parece ter sido escrito anteontem, confirma uma realidade que salta aos olhos. Na semana passada, Bolsonaro correu para anunciar nas redes sociais que daria graça (uma espécie legal de perdão) á pena de oito anos e nove meses de prisão ao deputado federal Daniel Silveira (PTB/RJ) por ter feito ameaças aos ministros do STF. 

Embora seja uma prerrogativa do presidente da República, a decisão confronta o STF e abre mais um capítulo na disposição de Bolsonaro em atacar instituições imbuídas no controle constitucional, um cálculo político duplo: desvia a atenção sobre a inflação e os outros problemas do governo, ao passo que mobiliza uma militância digital dentro e fora das redes. O confronto ao STF confirma que estamos diante de uma linguagem da destruição da democracia. 

*Cláudio André é Professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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