A desistência de Jaques Wagner

Publicado segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022 às 06:03 h | Atualizado em 02/03/2022, 11:44 | Autor: Cláudio André de Souza* | claudioandre@unilab.edu.br
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Uma semana se passou, e a caótica articulação do governador Rui Costa (PT) para assumir a vaga ao senado revelou que ele se esqueceu de uma tarefa: cuidar da sua sucessão. O retorno do senador Jaques Wagner (PT) ao Palácio de Ondina sempre esteve em pauta muito por causa da incapacidade de Rui para construir um sucessor ao longo do seu segundo mandato.

Vale lembrar: Wagner escolheu ser candidato ao Senado em 2018 após recusar a candidatura à presidência no lugar de Lula. Entendia que o Senado casava com a liderança nacional que ele passou a exercer no Planalto, após deixar o governo baiano. Durante esse tempo todo, as expectativas do Senador Otto Alencar (PSD) estiveram concentradas na sua reeleição ao Senado. Por que Otto não quer ser governador? Pela viabilidade eleitoral. Uma candidatura ao governo precisaria estar no radar do partido há mais tempo, no que se refere à composição de acordos e compromissos, sem falar no trabalho duro de assessoramento e organização da pré-campanha. A corrida pelo voto requer tempo e planejamento. 

Já o vice-governador João Leão (PP) deseja assumir o governo por nove meses, num coroamento da sua carreira política, que também ajudaria no crescimento do seu partido. Leão espera indicar o vice na chapa e surgir como nome forte para ocupar cargos num eventual governo de Lula.

Esse xadrez estava razoavelmente montado, já considerando a necessidade de o PP ser agraciado com outros espaços políticos, mas uma possível entrada de Rui na chapa confirma o que falamos na semana passada: há chance de implosão do arco de alianças e reversão de expectativas das lideranças locais.

A resistência de Otto para concorrer ao governo e a desistência de Wagner após a entrada de Rui na chapa se devem a uma conta simples: só quem sai ganhando é o atual governador, que, diante da alta aprovação da sua gestão, tem altas chances de ser eleito, mesmo no catastrófico cenário que petistas e aliados veriam surgir com as vitórias de ACM Neto, aqui, e de Bolsonaro, lá em Brasília.

A desistência de Wagner e a movimentação unilateral de Rui para ocupar a vaga da chapa para o Senado não constituem caminhos ilegítimos e inegociáveis, mas expõem falhas gritantes na construção das estratégias eleitorais e no diálogo de uma coalizão que se manteve estável nas últimas três eleições. Além disso, abala-se o palanque de Lula no quarto maior colégio eleitoral do país, o estado do nordeste com mais eleitores. 

Caso se confirme a indicação de Otto ou de Wagner, com um recuo deste na sua desistência, a chapa governista já começa na defensiva, tendo que provar que está unida e que não tem medo de encarar o ex-prefeito ACM Neto (UB) nas urnas.

*Cláudio André de Souza é professor Adjunto de Ciência Política da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) e um dos organizadores do “Dicionário das Eleições” (Juruá, 2020)

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